quarta-feira, 19 de junho de 2013

A importância da mente não tem textura




Eu não me importo se você torce para o Corinthians
Se você fuma, bebe
Se você come carne ou é vegetariano
Se você não gosta de Tarantino
Se você gosta de dormir de manhã

Eu não me importo
Se você trabalha de terno e gravata
Ou se vive de bermuda e havainas
Se você vota no PSDB ou é petista
Se gosta de Beatles e odeia Rolling Stones

Não me importa se você não acredita em Deus
Se é budista, judeu, católico ou evangélico
Se é hipster ou playboy
Se tem tatuagem
Se usa roupas coloridas ou uniforme

A importância da mente

não tem textura.


segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

São Paulo




Foto: Alessandra Marcuzzi

São Paulo é bela quando vista do alto
São Paulo é frescor quando caminha-se ao lado dela
São Paulo é um namorado que fuma - precisa de janela e céu aberto
São Paulo vale cada centavo quando não vende-se, mas rende-se
São Paulo não é um estado de espírito, é seu espírito em que estado?
São Paulo não é boa nem má

São Paulo é você.

Parabéns São (tantas emoções) Paulo :-)

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Intocáveis


"Intocáveis" - dos diretores franceses Olivier Nakache, Eric Toledano.


Na história (adaptação de um livro autobiográfico) Philippe, que ficou tetraplégico após um acidente de parapente, convoca candidatos para a vaga  de assistente pessoal, vaga que permanece em grande rotatividade já que poucos resistem no trabalho. Em uma dessas seleções conhece o carismático Driss, que fora expulso de casa pela mãe, e está totalmente sem rumo. Aos poucos, uma profunda amizade surge trazendo grandes transformações em suas vidas.

Esse filme tem sido um sucesso histórico para o cinema francês com grande bilheteria no mundo inteiro e vejo muitas razões para que isso aconteça: é um filme que cativa por sua humanidade e leveza. Não me lembro de algum outro filme onde uma "limitação" do porte da tetraplegia tenha sido retratada com tanta delicadeza e bom humor. Porque acredito que delicadeza não é dizer a palavra adequada, mas estar de igual para igual com o outro de forma autêntica. E autenticidade é o que não falta na relação de Driss e Philippe.

Driss, com sua "ignorância" chega a Phillipe com a única intenção de ter seu seguro desemprego preenchido. Na entrevista, como não sabe do que se trata, responde conforme seu contexto de vida 'as perguntas para a vaga e dessa forma encanta Phillipe, mesmo com sua seriedade e até certa amargura de quem está cansado de contratar pessoas que não durarão na função de assistente/cuidador. Cada um responde da forma como sabe e a empatia é criada. A partir daí o que vemos é o desenrolar encantador de conexão humana. Já não há apenas quem eu sou e quem você é mas uma curiosidade e interesse genuínos sobre a vida um do outro. E melhor, Driss quando se realciona com Phillipe o faz de uma forma tão natural que até esquece que ele é "deficiente" e Philliipe nem se lembra que Driss é "um ex detento". (A cena de Driss dando o telefone celular para Phillipe pegar é uma das melhores)

O filme me lembrou uma história que o Lama Padma Samten (professor do Centro Budista que frequento) contou numa palestra recente, é mais ou menos assim:
Em uma detereminada época, em algum lugar no Oriente (não lembro bem se Nepal ou Tibet) não usava-se ter documento de identidade, até porque as pessoas se conheciam pela convivência nas cidades. Quando passou a ser necessário, uma certa vez um homem indagado sobre seu documento disse:
- "Mas por que você quer meu documento? Eu estou aqui! Para que precisa da foto? Para comprovar que eu que estou aqui na sua frente sou eu?"
E então o Lama comentou sobre o quanto agimos assim na vida, pedindo credenciais, documentos  e nos esquecemos de que tudo o que precisamos já está ali na nossa frente para que nos relacionemos com a pessoa.
E é isso que vemos na dinâmica dos dois amigos: por mais que cada um reaja ou aja conforme o meio a que pertence, a empatia faz com que haja uma natural abertura de um com o outro que dispensa  credenciais, criando um vínculo de confiança sem esforço que flui mesmo em momentos em que discordam ou discutem.


Acredito que essas sejam algumas razões para que o filme nos toque tanto: porque desejamos relações mais fluidas, onde não prevaleçam o "cheio de dedos", "pisar em ovos", aquele "respeito" demasiado que no fundo é mais medo de expor-se ao outro do que um respeito genuíno... Relações onde possamos nos relacionar com todo o potencial que existe para além de qualquer limitação ou dificuldade nossa e dos outros. Porque apreciamos relações horizontais, onde há troca, parceria e tratemos e sejamos tratados como semelhantes... Porque queremos mais empatia, alegria, humor. Desejamos ser arrebatados para além dos rótulos que nós mesmos nos damos e das caixas onde nós mesmos nos colocamos. Porque queremos viver a vida de uma forma mais leve sejam quais forem as condições em que estejamos. Porque desejamos compartilhar nossa vida. Porque queremos ser olhados e não apenas vistos. 

Porque somos mais especiais quando nos lembramos do quão comuns somos.

Acho que esse diálogo do filme resume a essência da amizade dos personagens e de qualquer boa relação:

Driss: Você quer fugir daí?
Phillipe: Sim
Driss: Sem perguntas?
Phillipe: Sem perguntas.






sábado, 15 de dezembro de 2012

2012 uma odisséia no espaço


Dois mil e doze, gosto da pronúncia.
2012 um ano que, como brinco com alguns amigos, foi como passar por uma máquina de tirar cascas, uma centrífuga, um moedor de carne ou qualquer coisa do gênero. O que diferencia 2012 de um 2010 ou 2011, é que nos anteriores a falta de consciência de algumas coisas foram a razão para que fosse tão mais difícil, mesmo com tantas coisas a favor.
Mas 2012 não, ele foi a favor com tantas coisas fortes e profundas. Como aquela etapa final de um jogo, como aquela semana final de uma novela, como aqueles 30 minutos finais de um filme de aventura, que só fazem sentido mesmo para quem passou pelas fases anteriores ou acompanhou o enredo todo. 2012 talvez tenha sido o primeiro ano em que eu consegui olhar de uma perspectiva maior para os fatos: a perspectiva de uma jornada de vida. E tudo que era dolorido ficou comovente pois poder olhar para sua  própria jornada após percorrer cada caminho, degrau, fase, ou o que seja, passando pelo que é necessário, dá uma sensação de dignidade. E isso desperta uma gratidão profunda.  

2012 me desafiou mais intensamente por dentro. Não deu muita sopa para as minhas boabagens, nem tempo para dramas. É a máquina de tirar cascas, uma centrífuga que parece que te processa para dar suco. Em alguns momentos achei que não suportaria, como aquela trilha incrível mas muito íngreme e longa que fiz no Chile uma vez, e que, chegando ao final quando pensava que era só curtir a vista tão esperada, tinha mais uma montanha de pedra para escalar. E eu escalava exausta achando que não iria conseguir, já conseguindo, e uma galerinha que já tava no topo incentivava "Vem que você consegue". E você consegue, mas a sua maneira, a seu custo.

2012 foi assim, como a trilha de Torres del Paine: o caminho mais profundo é solitário porque depende única e exclusivamente da sua resistência, persistência, paciência, resiliência e principalmente: consciência. Mas não é de forma alguma sozinho, como o final do Big Fish, de Tim Burton: tem muita gente te incentivando, torcendo e inspirando a seguir e também os que comemoram contigo a tua morte.

2012 não foi um 2011, onde eu estava radiante socialmente, atendendo naturalmente 'as demandas sociais de forma mais frequente. 2012 eu tava radiante socialmente mas era em capítulos especiais, depois de ficar mais quietinha, respeitando o espaço de contração e expansão.
2012 eu passei por situações muito desafiadoras que muita gente que nem imagina até hoje. Porque  em 2012 eu consegui guardar para mim e processar as maiores dores e também  as grandes alegrias, sem aquela necessidade de 2008 por exemplo, de sair pedindo conselhos ou compartilhando as delícias ao mundo. 

2012 foi para poucos, mesmo estando cada vez mais para todos.

Um ou outro amigo ficou pra trás, sem culpa, na paz, como aquele vento que leva e você entende que é momento de ir pra outro lugar. Conheci muitas pessoas novas, alguns resgates de amizades antigas muito felizes e outros que ficaram por perto mais constantemente. 2012 me ensinou a idealizar menos as amizades, me trouxe um frescor de apreciá-las como são mesmo em momentos de indignação e tristeza ou alegria e euforia. 2012 me deu muita saudade de muita gente que vi muito pouco e quero ver mais. 2012 revalidou (mais e mais) a importância da amizade na minha vida,  ou melhor, das relações positivas: tesouro cada vez mais precioso que levo comigo mas cada vez menos da forma como idealizava e me idealizavam. Em 2012 eu tive mais ternura com a idealização dos outros em relação a mim, e menos paciência com a minha em relação a mim mesma, o que ajudou um bocado.

2012 ficou clara a epópeia com todos os seus capítulos, bonito de ver.  E mais um mundo acabou, tão belo como Melancholia do Lars Von Trier.
Hoje, ainda em 2012 eu compreendo que 2012 não foi um ano. Foi uma vida.


E que venha 2013, com o que quer

que seja.


sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Make up

 Uma noite em São Paulo - foto: Alessandra Marcuzzi



Gosto da decadência elegante da maquiagem borrada
Derretida no movimento

Honesto.

Olheira de rímel borrado.
O lápis que ainda sobrevive no canto interno do olho

Profundo.

O pouco de base que fica e deixa o rosto craquelado de linhas
Formando um caminho misterioso entre o que era e o que é
O pó que não dá mais brilho

Pálido.

Os restos de batom vermelho
Corando a boca
Como um vinho que escorreu numa distração

Encantado.

O cabelo suado que preso parece que foi engomado
Solto é como um alter ego

Poder.

Gosto do visual anárquico
Como uma ironia ao controle da beleza
Que desafia a ordem anterior
Impõe-se

Acidental.



Dedicado a Lou Reed. R.I.P 27/10/13

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Bird

 
When I returned from so many journeys,
I stayed suspended and green
between sun and geography -
I saw how wings worked,
how perfumes are transmitted
by feathery telegraph,
and from above I saw the path,
the springs and the roof tiles,
the fishermen at their trades,
the trousers of the foam;
I saw it all from my green sky.
I had no more alphabet
than the swallows in their courses,
the tiny, shining water
of the small bird on fire
which dances out of the pollen.
Pablo Neruda

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Respeitável Público

Foto via @Teen & Art


Ela veste roupa e botas brancas e sobe por um tecido
Balança com muito impulso para frente e para trás
(como naqueles balanços que eu adorava no parque ou na pracinha da cidade do meu avô)
Com a leveza de um pássaro e precisa como um gato ela faz acrobacias com o vai e vem
Numa delicada entrega ao vazio além das cordas e a barra
E quando volta para o trapézio, é como uma dança

Meus olhos marejam

Alguém diz: ela está com um cabo de aço, aí não tem graça.

....

Ele veste roupas estravagantemente brilhantes
E dá boas vindas ao mundo da fantasia
(como quando ia aos parques de diversões)
Gesticula com as mãos com a leveza de um maestro do nada
E retira o tecido do que era antes num toque só
E algo novo surge, surpreendente
Numa delicada aparição de um vazio para outro
Ele faz desaparecer pessoas, uma moto e até aparecer um helicóptero

Meus olhos ficam hipnotizados de encantamento

Alguém diz: muito manjado, a gente sabe que é truque.

...

Você pode (até) acreditar no que alguém diz

Mas não perca o espetáculo.

domingo, 25 de novembro de 2012

Segredos de liquidificador

Água
Amêndoas
Tampa
Velocidade 8.

Nada.

Acende a luz pra ver se era falta de energia
Recoloca o copo e a tampa pra ver se estavam fora do lugar

Nada.

Será que queimou?
Solta um palavrão.

Nada.

Desencana e vai pra sala
...

Volta para tomar uma água e sorri como uma criança peralta:

O liquidificador estava apenas fora da tomada.