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terça-feira, 1 de setembro de 2009

Como pode ser?



"Se procura o verdadeiro amor escolheu a mais difícil das tarefas.
Todo trabalho não passa de uma preparação.
Amar não significa renunciar, render-se a alguém.
É um chamado a maturidade."

Kama Sutra


Apaixonar-se
Deixar-se entrar
Pra deixar ele sair
Fechar os braços para a intersecção
Abrir os braços pra soltar (pra onde for)
e nada foi perdido

Saber ser apenas homem
Saber ser apenas mulher

Falar com os olhos
Olhar com a boca
Existe a lua
Desnecessário outro tema

Olhar o pequeno
Uma xícara na mesa
Um bombom
O formato do rosto
O desenho do sorriso
Sem que seja xícara
Mesa
Bombom
Rosto
e sorriso

Experimentar
A pele
O gosto da textura
O cheiro da sensação
O formato das curvas
Eletricidade
Química
Conexão

Como pode ser?
Dar a mão ao medo
e deitar-se com ele todo dia?
E deixá-lo penetrá-la
até que seja capaz de ter êxtase com isso

Olhar amplo
O mundo inteiro dentro
O mundo inteiro onde caminha
Expansão
Os espaços entre as distâncias
As distâncias que não existem

As identidades
Desejam
Manipulam
Controlam
É preciso andar na linha com o ego
mas é uma linha que leva de volta ao início do círculo
Beber do veneno
E não se contaminar

Espera-se que tudo se mantenha
Que a mágica se congele
Que o roteiro se cumpra
Que as respostas apareçam

Nisso perde-se a menina
e o menino
Se perde a risada
Se perde a lágrima
Se perde a saliva

Querendo acertar
Joga-se a flecha
e ela pode doer muito
Caso atinja o alvo


Como pode ser?
Pra estar apaixonado tem que se ter o olhar do amor
Como para ser discípulo, tenha de se ter o olhar do mestre


Om mani padme hum

domingo, 10 de maio de 2009

Alguns pensamentos sobre o amor


"O amor não é um sentimento, é uma habilidade"

do filme Dan in Real Life

A palavra amor está tão banalizada quanto seu próprio sentido. Ouço aqui e ali das mais variadas formas, para descrever as mais variadas situações, mas parece tão automático que fica como um uníssono vazio. Esse foi um dos motivos que me fizeram querer parar e aprofundar sobre o que é o amor, aquele elaborado, sentido, vivenciado, livre das superficialidades coletivas.

Descubro que amor é muito mais que esse frio na barriga, essa impulsividade, sensação de euforia. Isso pode ser um esboço de amor, uma paixão, e não precisamos subestimar o valor de uma boa paixão. A paixão nos movimenta, nos dá energia. E por ironia, descubro também que o amor está sempre lado a lado com a paixão, é questão de acessar, desmitificar, integrar de forma mais elevada todos os benefícios das motivações de uma paixão. Por exemplo, a disponibilidade que temos para o outro: encontramos tempo, ficamos sem dormir, fazemos coisas que nem gostamos tanto quando estamos apaixonados. Outra é como conseguimos ver qualidades positivas no outro, como relevamos e toleramos mais, como queremos mostrar nosso melhor.
É mais ou menos assim: podemos sentir paixão amando e amar apaixonados. O amor é algo mais autônomo e por isso difícil de desmitificar, parece muito distante de alcançar, tão divino quanto inacessível. Para mim o amor é sagrado e por isso mesmo ele está tão perto e disponível, não precisa ser tão idealizado. Pelo mesmo motivo, renegamos a paixão, tão mundana, tão fácil de acessar que parece algo inferior. O amor é realmente transcendente a paixão mas ele não exclui a paixão, um faz parte de outro, um pode dançar com o outro em sintonia, essa é a beleza.

Todos buscamos algo em troca, mesmo que inconscientemente e isso também não é um problema, ou torna menos digno o amor. Mas se nos mantivermos apenas nesse nível de perdas/ganhos perderemos o melhor do amor, que é a capacidade de ir além de si mesmo. Vivenciando o amor com essa maturidade, paramos de dar tanto valor ao sentimento de forma simplista, o que minimiza nossas carências e expectativas, e olhamos mais amplamente, olhamos a pessoa além do objeto e enfim, o ser além da pessoa, seu contexto, sua história. Infelizmente não é o que temos tanta disposição para fazer hoje em dia, pois queremos rápido, queremos mais e o melhor. Trocamos de relações de forma utilitária, buscando um ser perfeito que nos complete, nos traga felicidade, buscamos uma idealização, um significado, e não um sentido de amor. Agimos como crianças mimadas, vivendo nossas paixões de modo tão superficial que nos atemos mais ao que gostamos ou não, nos orgulhamos de sermos intolerantes com determinadas características do outro, nos afastamos ao primeiro sinal de desgosto, rejeição ou diferença. Por isso sofremos.

Mas o amor tem mais a ver com disposição e habilidade para estar junto do que qualquer outro mito que se possa criar, é muito mais simples do que estar com alguém simplesmente porque se ama. Amamos porque nos disposmos a estar com alguém e não o contrário. Minha experiência de casamento me mostrou isso. Sentir amor não segura nenhuma relação, mas a habilidade de amar e a disposição de estar junto sim, e isso foi o que fez com que fosse feliz até o fim.
Se quisermos aprofundar mais ainda sobre o amor, olhemos para as situações controversas a nossa vontade. Ao inesperado, dolorido, ao que incomoda, perturba  e ainda assim somos capaz de pensar amorosamente em alguém. Isso talvez seja o que Jesus disse de "oferecer a outra face". Oferecer o outro lado, que todos temos, o lado amoroso acima de tudo. O lado tolerante e compassivo de suportar o que é tão desagradável porque nos dispomos a seguir adiante num exercício amoroso da liberdade, uma liberdade genuína de poder ser e fazer qualquer coisa dentro da impermanência natural da vida e mesmo assim optarmos por seguir naquela direção.

O amor está além do medo, amplo, aberto, sem fronteiras, não há onde escorar e ao mesmo tempo ele nos protege sobre o ar, paradoxalmente ele nos sustenta no vácuo. Dessa forma nos tornamos hábeis e amamos. Amor é o que acontece enquanto, além de brincar, sustentamos.

É uma valente disposição de espírito.



"Talvez fosse melhor se a vida não trouxesse mudança - se pudéssemos confiar em que ela nos proporcionará felicidade duradoura.
Mas, se isso não é verdadeiro, uma compreensão calma e clara do que é verdadeiro -- nenhuma condição é permanente ou confiável -- enfraqueceria o ponto pelo qual o desejo nos agarra.
O sofrimento pode desvanecer-se no despertar, devido ao absurdo dos pressupostos que o sustentam. Sem reprimi-lo ou negá-lo, pode-se renunciar ao sofrimento do mesmo modo como uma criança renuncia a um castelo de areia: não reprimindo o desejo de construí-lo mas desviando-se de um esforço que já não desperta nenhum interesse."

Stephen Batchelor




Dedico a minha mãe, que me ensina muito sobre o amor e quem amo deveras.





segunda-feira, 13 de abril de 2009

Se você se apaixonar por mim...


Se você se apaixonar por mim...

Tenha paciência com minhas confusões
Elas são apenas um pedido pra que eu me encontre
Muitas vezes um atalho sinuoso pra chegar em você

Entenda minha menina, coloque-a no colo na hora da tristeza
E não dê muita bola na hora da birra
Me faça um cafuné

Rasgue resistência por resistência e vá se deliciando com elas
Ao invés de questioná-las
Depois me renda e me tenha como se tem uma mulher

Não exija muito, não cobre, não dê muita vazão a posse e ao ciúme
Considere a imaturidade da minha malícia
e que muito do que parece definitivamente não é

Se você se apaixonar por mim

Saiba que em muitos momentos aprecio a solidão
E isso nada tem a ver com declinar sua adorável companhia

Movimente-se
Nem muito longe que não possa vê-lo
Nem tão perto que distorça
Esteja ao lado e nunca será muito nem pouco

Abra os braços
Aperte bem forte a minha mão
Segure na minha cintura

Não me analise tanto
Não me interprete a todo momento
Olhe além e contemple os sinais
Respire o perfume do mistério

Incorpore tudo isso escrito aqui
E delete da sua razão

Não tenha medo de abrir a porta
Ela não está trancada e tampouco precisa de força
Abra devagar, entre sutilmente e sinta todas as possibilidades
que existem nesse universo do eu, você , um mundo inteiro e nós


Se você se apaixonar por mim,
que seja doce esse fim





P.S: Texto meu publicado em 04/07/08.
Totalmente inspirado numa proposta da revista Marie Claire do ano passado. Foram convidados alguns homens para escrever uma carta fictícia a uma mulher apaixonada dizendo o que fazer ou não fazer para não estragar o romance. O título é "Se vc está apaixonada por mim, nunca..."
Como não acredito em nunca, mudei um pouco isso.

Dedico aos homens apaixonados.