sábado, 28 de março de 2009

A insustentável leveza do ser




"...é mais ou menos assim o instante em que nasce o amor: a mulher não resiste à voz que chama sua alma amedrontada, o homem não resiste à mulher cuja alma se torna atenta à sua voz."

Milan Kundera


Assisto, depois de alguns anos "Insustentável Leveza do Ser", filme de Phillip Kaufman baseado no excelente livro de Milan Kundera. Filme belíssimo, com atuações excelentes de Daniel Day- Lewis e Juliette Binoche.
É a história de Tomas, um médico que pretende levar a vida com "leveza", sem compromisso com as convenções sociais, políticas, morais que "pesem" em sua vida. Dessa forma, embarca numa vida sexual livre, onde se permite viver as experiências conforme sua necessidade interna.
A certa altura ele conhece Tereza, uma jovem ingênua, interiorana, que logo entra em sua vida. Ao mesmo tempo, tem uma relação intensa com a "única mulher que o entende", Sabina, que , como ele, leva uma vida de liberdade sexual.
Como pano de fundo a situação política da Tchecoslováquia em 1968, com a tomada de Praga pela Rússia, impondo um regime totalitário contrário a toda proposta de liberdade de expressão da Primavera de Praga (aqui também a idéia de peso/leveza, a leveza foi tomada pelo "peso"), que implica grandes mudanças em suas vidas.

Sem dúvida é um filme difícil se visto de um ângulo moral, mas extremamente rico de um ponto de vista mais amplo, além dos pre- conceitos.
Tomas é um homem muito interessante. Ao mesmo tempo que transita descomprometido pelo terreno sexual, a parte valores culturais e morais, não conseguimos vê-lo como um cafajeste. Sua postura é autêntica e ele a vive de forma natural, inclusive no trato respeitoso com as mulheres, sendo até reverenciador. Em primeiro lugar pelo olhar profundo que ele dedica a cada uma a que lança o imperativo "tire a roupa". Ele não invade, não corta, não violenta. Ele hipnotiza, penetra, cativa. Depois pela intimidade que tem com as as amantes, ele divide pensamentos, idéias, compartilha, não é simplesmente um caçador primitivo, ele se envolve com cada uma delas. Como bem citou um amigo, ele pensa que está em busca de sexo mas está em busca da intimidade (assim como todos nós), em cada mulher ele busca uma única mulher.
Mas essa "leveza" também acaba levando-o a uma impessoalidade tamanha auto-suficiência que ele desenvolve adotando uma postura um tanto narcisista.

Ao mesmo tempo, Tereza vem para quebrar muitos paradigmas na vida de Tomas. Com ela ele descobre uma intimidade mais genuína (finalmente acorda ao lado de uma mulher) e uma relação mais profunda, por mais que não deixe de prosseguir com sua vida de liberdade sexual. Mas em algum momento, essa liberdade, essa leveza de folha ao vento, não se sustenta mais para nenhum dos dois e eles são conduzidos a avaliar suas vidas.

Tereza chega de mansinho e entra na vida de Tomas como um cachorrinho abandonado na porta de casa. Com sua fragilidade aparente, seu jeito de "passarinho", delicado e puro, ela desenvolve com ele uma relação muito profunda e complexa. A princípio se propõe a aceitá-lo como é, mesmo perturbada pelas imagens de traição que constantemente tomam sua mente. Numa relação quase simbiótica de carência em ser parte desse universo pelo amor que tem por Tomas, ela acaba muitas vezes violentando sua própria natureza.
Quando, depois de muito se entregar e mergulhar no universo do parceiro ela percebe que não consegue levar adiante, aí sim aparece uma mulher mais inteira, mais íntegra, que transforma sua vida e a vida desse homem.

Na outra ponta do triângulo está Sabina. A mulher que "gosta de deixar os lugares", que acaba se envolvendo com Franz, um homem casado e "bom" como ela mesma gostava de dizer. Mas um homem racional, preso a padrões e conceitos civilizados, que confrontam com sua liberdade idealizada e sua forma natural de viver.
Sabina é como se fosse a versão masculina de Tomas, uma mulher ousada, inteligente, mas que se recusa a ter uma relação mais profunda de convivência com um homem, vivendo de forma solta, desprendida. Como se cada homem tivesse que permanecer no mito para ser um amante perfeito, a humanidade da convivência talvez fosse algo difícil para lidar dentro do modo de vida que escolheu.

Cada um desse triângulo tem suas qualidades especiais. A leveza de Tomas, sua presença em viver o momento, sua autenticidade. A entrega de Tereza a relação, indo além das fronteiras imaginadas, mostrando-se uma mulher forte e madura, disposta realmente a "amar melhor".
A personalidade forte de Sabina, sua generosidade, independência de pensamento. A relação de "amizade" das duas amantes, que numa das cenas mais belas do filme, ambas se fotografam nuas, confrontando-se num jogo de poder mas que acabam rindo, numa humanidade que as torna semelhantes, no amor pelo mesmo homem que as fazem investigar uma a outra, numa entrega quase visceral.

E o respeito dentro dessas relações que tudo tinham para ser promíscuas. Há o não revelado, mas não há a falta de escrúpulo. Há o erotismo, mas não há vulgaridade. Aliás um ponto forte é como o diretor registra os corpos das personagens numa plástica belíssima que nos faz admirar o corpo humano como ele é, num contexto natural, fluido como deve ser a relação entre os corpos, e a relação de cada um com seu próprio corpo.
Como o próprio Tomas diz, cada mulher tem seu detalhe, sua particularidade.

Saio da sessão com um sentimento de que homens e mulheres realmente têm naturezas distintas, o que exige um amor verdadeiro para a aceitação dessas diferenças e para uma convivência profunda e saudável. É preciso transcender a paixão pelo "objeto" e mergulhar no amor pelo "ser". Não adianta fisicamente tentarmos saber como é o lugar do sexo oposto, não adianta mudar a roupa nessa alma, as naturezas sempre falarão mais alto.
E a traição não é essa variedade de parceiros, é a infidelidade com nossa natureza, com o que somos. A verdadeira fidelidade é natural, é um prazer em estar com uma só pessoa. Se convencionada, ela perde sua autenticidade, sendo apenas uma regra moral vazia, que gera expectativa, insegurança e sofrimento.

Mas o filme também mostra que é possível viver tudo isso com a aceitação do peso e da leveza de ser o que se é, de se viver o que se propõe.
Tentar viver qualquer uma apenas, será absolutamente insustentável.


"(...)Não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez, sem preparação. Como se o ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio já é a própria vida? É isso que faz com que a vida pareça sempre um esboço. No entanto, mesmo "esboço" não é a palavra certa porque um esboço é sempre um projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é esboço de nada, é um esboço sem quadro(...)" -

Milan Kundera




P.S: Dedico ao Roberto Otsu pelas reflexões e muitas idéias aqui apresentadas em sua exibição na livraria Millenium.

terça-feira, 10 de março de 2009

Quem quer ser?


" I guess I knew the answers..." - Jamal Malik

Finalmente fui assistir "Slamdog Millionaire" traduzido como "Quem quer ser um milionário?", filme de Danny Boyle o mesmo diretor do ótimo Trainspotting.

Sem entrar muito no mérito formal, a edição e fotografia são os pontos fortes nesse sentido e as polêmicas das semelhanças com "Cidade de Deus" se reduzem a alguns takes, uma galinha e a fotografia "quente". Esse é um daqueles filmes que não consegui "rotular" de bom ou ruim, o que o tornou bem mais interessante. Isso se deu por algo curioso: enquanto estava sendo levada pelas emoções do drama de um lado B da Índia tão idealizada, onde miséria e violências de tantos tipos se mesclam com a beleza, era fisgada mas como se assistindo a uma novela. Lá pelo meio, meu olhar mudou e fez toda a diferença: atentei aos simbolismos e comecei a ver o filme como uma fábula pop, o que de alguma forma flexibilizou muito minha resistência e preconceito com a história.
Isso foi possível graças a ótima narrativa que "costura" as perguntas do TV Show com a crueza da vida real da personagem. O jogo dos dois lados, as dualidades, me trouxeram boas reflexões.

Jamal Malik cresceu nas favelas de Mumbai, onde passou por circunstâncias duras, cruéis. Durante o filme a gente vai descobrindo com Jamal as respostas que não temos, as que achamos que temos e as que queremos ter. Ele vive sua vida "respondendo o que perguntam", dizendo a verdade, numa simplicidade impressionante. Ora protegido pelo irmão Salim, ora por algum tipo de "redoma" que o cerca, ele atravessa as dificuldades com um caráter interessante, aquele que até comete deslizes pela sobrevivência mas que mantém algo de digno, puro, no íntimo.

Enquanto passa pela vida, Jamal não tem as respostas, até porque não há tempo para muitas perguntas para quem precisa imediatamente sobreviver. Em um game show, em que precisa das respostas, ele não sabe que sabe, mas por ter vivenciado muitas situações ele faz conexões com as perguntas e todas as respostas se abrem pra ele.
E no desfecho ele conclui que acha que sempre soube as respostas.

A história de amor que o move é sua parte "pura" representada por Latika. Ele se move em direção a Latika o tempo todo, ela o faz sair de si mesmo ou de apenas sobreviver. O amor por ela nada mais é do que o espelho dele mesmo. Jamal cresceu sabendo servir, fosse apenas para sobreviver ou por amar, talvez por isso ele tivesse essa espécie de "blindagem" ou "sorte".

Essa é nossa vida, questionamos o que nos acontece, ansiamos por respostas e mais, por dar a resposta certa. Buscamos das mais variadas formas encontrar algo fixo (seja uma verdade, uma realidade, uma pessoa, um milhão) que nos dê a segurança de que temos onde apoiar -nos por um bom tempo ou uma vida inteira.
Na "hora da verdade", é como se não soubéssemos de nada, ignoramos tudo que já vivenciamos, quando não nos arrependemos, culpamos, lamentamos, como se o futuro fosse encarregado de dar algum parecer final que nos acalente a alma.
Não há parecer final senão a partir do que foi vivido e essa é a grande sacada que o filme me mostrou. No fim das contas, seja lá onde cheguemos, chegamos por percorrer um caminho e esse caminho fica mais leve se não nos preocuparmos tanto em dar a resposta certa, ganhar ou perder. Talvez isso acabe determinando o que "está escrito" ou a "sorte". Se estava escrito, Jamal foi co-autor dessa história o tempo todo.
Grande parte do tempo estamos como num game show onde corremos atrás de um prêmio e nos colocamos a perguntar e a responder ao mesmo tempo. Mas não temos as respostas, vivemos as respostas. Assim como não chegaremos a nenhum lugar, o lugar é o caminho, essa é uma interessante ironia.

Na minha opinião o melhor do filme é isso: como uma bela fábula ele nos tira um pouco do nosso microcosmo e nos conduz além. O mito de todos nós na comum figura de um "garoto do chá".

E no final a esperança, a esperança real de se viver a vida que se tem.
Esse é o grande prêmio.




"Ser ambicioso na prática do paramita é uma preparação para o fracasso. Quando desistimos da esperança de fazer tudo direito e do medo de fazer errado, compreendemos que tanto ganhar quanto perder são aceitáveis. Em qualquer dos casos, nada temos a que nos apegar.
De momento a momento, estamos viajando para a outra margem." Pema Chodron


P.S: Dedico a querida Renata, uma das trocas mais preciosas que há.
Dedico ao grande medo e êxtase das respostas que não tenho.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Revolutionary Road

"Às vezes, conversava com meu pai sobre sonhos que eu acalentava e que implicariam mudanças grandes na minha vida.
Ele me escutava e, em geral, concluía: "Só que não basta sonhar, é preciso ter coragem".
Em suma, havia uma infelicidade específica que ele não queria para mim, a de quem cultiva seus desejos como se fossem "apenas um sonho", sem ter a ousadia de tentar vivê-los."


Contardo Calligaris



Revolutionary Road, traduzido para o português como "Apenas um sonho", ótimo filme de Sam Mendes com Kate Winslet e Leonardo di Caprio (excelentes). Desde "Beleza Americana" (do mesmo diretor), passando por "Pecados Íntimos" (com Winslet) um drama não me impactava tanto.
O filme trata de temas relevantes e delicados. Para começar de hipocrisia, das nossas "loucuras" não sublimadas, desejos embaixo do tapete que alimentam um lado sombrio que passa a ser um monstro que nos acompanha (quando nós mesmos não nos tornamos o monstro). Hipocrisia representada pelo esteriótipo de "propaganda de margarina" criado pelo "american way of life", onde ter um emprego bem sucedido, uma linda casa, a perfeita família e tudo de status que possa reforçar essa imagem é o grande sonho a ser realizado. Hoje, com essa crise que teve início como consequência desse "american dream", um país quebrado, onde o consumo e o endividamento exagerado chegaram ao ápice, talvez seja um bom momento para questionar com mais profundidade nossos desejos, o que realmente vale almejar.

April é frustrada por não ter sucesso como atriz. Quando se apaixonou por Frank, apaixonou-se pela idéia de que eram um casal muito especial capaz de fazer qualquer coisa. Frank não queria acabar como seu pai e sempre se questionou sobre o que realmente queria fazer na vida, talvez tenha se apaixonado pela mesma idéia quando conheceu a impetuosa April.
O tempo passa e eles se tornam exatamente comuns. Como é desconfortável ser comum, não ser especial, não ter histórias e feitos fabulosos para contar, mostrar aos vizinhos, algo que te diferencie dos outros de alguma forma, te dê um brilho diferente.
O sonho de morar em Paris, a possibilidade de realizar essa "loucura" e se tornar diferente de toda aquela gente os une numa nova paixão: um idealismo "infantil". Infantil pela falta de consistência e coragem de concretizá-lo. Quando os fatos começam a minar esse plano tem-se o climax do que o desejo e a falta de coragem podem realizar, de fato.

Há duas questões que se entrelaçam de forma muito sutil: é um grande problema almejar uma vida radicalmente diferente? Ou é um grande problema não aceitar a vida que se tem e sempre querer mais? Quem está certo? A "loucura" que April quer perseguir ou o "comodismo" de Frank?
Eu, pessoa quase sempre impetuosa, questionadora e cheia de idéias mirabolantes posso dizer que há diversas nuances. Já tive meus rompantes de querer dar um grande salto radical sonhando com uma vida extraordinária em outros países. Já dei um salto radical em mudar de uma profissão que eu gostava mas me sentia oprimida e infeliz por outra totalmente diferente e que me dá grande alegria (mas não menos trabalho...)
Descubro que a questão não é fazer o que se gosta, simplesmente. E é bem menos buscar somente o que nos dê prazer. Hoje observo que tem muito mais a ver com pagar o preço e fazer o que tem que ser feito.

Dessa forma, Frank estava mais "de acordo" com sua comodidade. Pagava o preço dia a dia de fazer o que não gostava fazendo o "que tem que ser feito" que é sustentar sua família, prover o melhor dentro do que aprendeu ser o estilo de vida desejável e socialmente bem aceito. April, sonhando com o futuro sempre, guardava todo ressentimento e frustração, jogando muitas vezes a responsabilidade dessa mudança para Frank. Mas também era capaz de desejar um emprego em Paris que a permitisse sustentar o marido e deixá-lo a vontade para descobrir o que queria fazer da vida...
Talvez o que faltasse a eles fosse um olhar de transgressão dentro do mainstream, uma liberdade de ser uma "família propaganda de margarina" não sendo uma família propaganda de margarina. É o que tenho aprendido muito com o budismo, esse brincar, dançar com as identidades e não simplesmente rejeitá-las ou se grudar nelas.
Talvez April pudesse ser algo além de atriz e dona-de-casa. Talvez Frank pudesse usar todo o sacrifício que era trabalhar naquela empresa fazendo viagens (a Paris inclusive) e pequenas "loucuras" no dia a dia mais além de transar com a secretária.

Faço um parênteses curioso: imaginando a possibilidade de não viver mais aquela vida, Frank trabalha muito melhor a ponto de receber uma proposta de promoção e April se abre bem mais a Frank a ponto de terem uma vida conjugal/familiar muito mais leve. Não é irônico que sem ter sequer viajado a Paris a vida deles já tenha se modificado espontaneamente?
Não é uma cidade, uma situação econômica, um marido, filhos que nos prendem. É nossa falta de perspecrtiva ampla, de nos olharmos além de executivos, pais, filhos, mulheres, atrizes, donas de casa. É nossa visão limitada de poucas possibilidades que nos encouraçam, e essa cabe apenas a nós mesmos transformar. E isso exige coragem e tem um preço.

Não a toa Paris é bem mais motivante, é muito menos dolorido imaginar uma vida em Paris a ter coragem de olhar para si mesmo.




P.S: Dedico a Pema Chodron que tem me ensinado muito sobre os lugares que assustam.
Aos ensinamentos do Lama Padma Samten, que me ajudam nos lapsos de lucidez
A todos os amigos pelo aprendizado e troca.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

A sós

"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos." Fernando Pessoa


Chegou o momento.
Antes era um pouco mais fácil, não por força, sabedoria, mas por condições favoráveis. Era mais fácil estar a sós comigo quando os fatores externos colaboravam, de certa forma eles "anestesiavam" a inquietação interna, dando uma impressão superficial de que tudo estava fluindo e bem. Hoje descubro que não era bem assim, era muito mais fácil estar comigo porque meus desejos eram atendidos numa velocidade mais de acordo com minhas expectativas, meu ego tava confortável pois bem nutrido e eu achava que estava "bem resolvida".
Há um tempinho isso vem mudando. A impermanência ou tem sido maior e mais frequente ou eu só passei a notar quando comecei a tropeçar demais... Os confortos externos se não foram retirados de alguma forma, foram transformados para alguma coisa com a qual eu não poderia contar. As pessoas, se não foram embora, estavam perto demais para que eu pudesse vê-las então dava na mesma, acabava vendo mais a mim mesma.
Dia após dia eu parecia estar no enredo de um filme dos irmãos Cohen, sucessões de ironias, muitas sem nenhuma graça mas a minha própria era a mais infeliz.
No começo isso pesou, como tudo podia mudar assim? O que eu tinha feito? Que karma estava atuando? Enfim, mil perguntas controladoras que não chegavam a lugar algum.
Na fase seguinte, comecei a me divertir. Uma rasteira atrás da outra e de tão impotente não podia mais fazer nada a não ser sentar no chão e rir. Começou a ficar muito cômico o que nunca foi trágico, a saga de mim comigo mesma que eu não tinha notado que estava apenas começando...

Hoje lá pelo capítulo 20, depois de algumas boas situações favoráveis, do ego brincar de estica e solta, depois de me machucar um pouco com decisões equivocadas e de ir ao topo com outras tantas maravilhosas, cá estou a sós.
Eu tenho me chamado muito desde o começo do ano. Uma hora pelo físico, outra pelo emocional, mas agora no clímax, pela alma. E dessa nunca consegui escapar.
Está dolorido, está pleno, está confuso. A última dessas me fez dar uma virada graus e mudar de profissão. Não vou negar que estou com medo, muito mais do que sou capaz do que do que pode me faltar, mas mal espero pra me atirar no precipício.
Não a toa a melhor coisa desses dias é poder mergulhar no rio gelado, no escuro, sempre que posso. Tenho procurado o escuro e qualquer coisa que me faça perder o controle sem me perder, sem escuridão não vejo vagalumes!
A natureza mais uma vez e sempre é minha mãe, meu pai, eu mesma. Ela me motiva, me abraça, me sacode e me devolve lucidez.

Ainda assim, não está fácil ficar a sós comigo. Mas eu desejo tanto esse encontro (tanto quanto eu admirava quem entrava no rio gelado e eu colocava só a ponta dos pés...) que no fundo eu sei que a hora em que eu me atirar, não vou querer sair tão cedo.
Esse é o momento, essa verdade é muito difícil de enfrentar.

O que você quer, afinal?

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Sobre homens


Eles são pontudos, retos.
Eles são diretos.
Eles conduzem como ninguém, fazem rir deliciosamente.
Eles não sabem pedir colo, mas estão sempre disponíveis pro carinho.
Não resistem a um mistério, a uma curva, um pedaço.
Eles gostam de pedaços, trechos, partes.
Pouco sabem dizer não... o que muitas vezes é uma pena...
Difícil saber o que passa na cabeça deles nos hiatos
Por mais óbvio que seja o que se passa na cabeça de um homem...
Eles nos confundem não pelo mistério
Mas pela nossa própria natureza confusa diante da simplicidade deles.
Eles simplificam.

Eles apertam, penetram, espremem, são força bruta com incrível sutileza.
Eles pensam pouco e uma coisa de cada vez.
Eles têm hora pra conversar.
Se divertem com bobagens.

Seguram a emoção até onde podem
Mas estou pra ver coisa mais linda que as lágrimas sinceras de um homem.
Se prestar bem atenção consegue-se ver estrelas nos seus olhos úmidos.
O sorriso é um pouco mais fácil, nem por isso de menor beleza.
Eles olham forte e olham fundo.

O cheiro é bom, a textura é macia e rígida,
Uma segunda pele, uma concha, um cobertor.
Seu peso sobre o corpo é intersecção perfeita.
O encaixe da sede que busca e o ritmo, êxtase.

Eles sentem raiva das nossas confusões na mesma proporção que querem entendê-las.
Eles não querem competir, eles querem conquistar.
Eles amam verdadeiramente e desamam na mesma medida.
E isso as vezes dói.
Eles não são de entender, eles não são de se explicar.
Eles são de degustar, tatear, desabotoar, envolver.
Nossos maiores mestres sobre viver o presente.

Eles são de ver, voyeurs por natureza.
Não adianta esperar que eles não vejam e que não desejem
Nada ameaça um vínculo que um homem criou com sua mulher.
Eles querem que a gente confie, entregue.
E nós queremos desesperadamente confiar e nos entregar.


Eles são e sempre serão meninos, quando você conseguir adentrar devagarinho, redondinha o seu coração.






P.S: Dedico aos homens.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Sobre a vida




"When I die, I'll fly with angels
And when I die to the angels
What I shall become you cannot imagine"

Rumi - poeta persa

Influenciada por gente comum como eu, frases de grandes personalidades, filmes (especificamente "O curioso caso de Benjamin Button"), crônicas de jornal, observação, fatos, tenho pensando sobre a vida enquanto vivo. Num mês em que a idade mudou, como um placar de partida de futebol ou a hora no relógio, me pego pensando sobre o tempo.
Filosofia rasa a minha, mas reflexões importantes têm acontecido. Nunca tive problema em envelhecer mas hoje em dia queria ter uma outra idade pra quantidade de coisas que tenho descoberto que quero fazer.
A ilusão de tempo me barra, parece que não terei tempo de fazer tudo isso que quero, pra muita coisa não tenho mais idade e que as coisas estão acontecendo muito rapidamente e minha criança-adolescente interior não acompanha.
Não queria ter meus vinte e poucos anos, mas trinta pra começar. Trinta tava bom pra tudo isso que amadureceu dentro de mim. Trinta anos e ... start the game!

Mas percebo que a ironia, brincadeira, sabedoria da vida é exatamente essa. Não importa de que ponto, todo dia é dia de dar o start. Todo dia é dia de se apropriar com muito amor da liberdade que nos foi dada desde o nosso nascimento: escolher a cada momento, brincar com o tempo, dançar a impermanência, se soltar de tantas e tantas identidades num vôo livre sobre o precipício.
Todo dia não somos mais os mesmos e ainda assim novos, somos únicos cada um a seu tempo, cada um a sua alma.


P.S: Dedico a todos os olhares que passam por aqui.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

História Universal

"Nunca soubemos
amar em pleno vôo
como as andorinhas

que no auge do prazer
pairam e se absorvem
no antídoto dos instantes.

Então escolhemos
em vez do coito
(viveiro de constelações)

lágrimas nos olhos
e um banquete de asas."

Antônio Mariano

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Dia do nascimento


"Sob as árvores da infância, altíssimas, passearemos.
As de formigas ruivas nas raízes expostas,
de resinas e cascas de cigarras, nos rugosos troncos,
de ventos, frutos, estrelas claras nos móveis frondes.

Passearemos sob as altíssimas árvores da infância,
pisando com silenciosos pés o chão - no entanto, de folhas secas,
fruindo com sabedoria o passeio, sem origem nem finalidade,
vivendo o instante de alegria das almas felizes reencontradas.

Sob as altíssimas árvores da infância passearemos
O nosso conhecimento está fora de quaisquer acasos.
Jamais saberíeis pronunciar o nome que atualmente uso.
O rosto que levamos nada tem com os acontecimentos.

Ah! Somente as árvores da infância, altíssimas, nos reunem agora:
houve um tempo anterior, de luz, de cristal, de pureza, de afeto?
Quem quer que sejamos, só nos entendemos por essas auréolas
que pairam sobre nós, translúcidas, fluidas, hesitantes a brisa."

Cecília Meireles


Nesses dias de janeiro

Me comove a criança que corre pela sala sem pensar no que dizem os adultos
Me comove olhar o pezinho do bebê
O gato que ronrona com um cafuné
O cheiro da flor aberta e viçosa
O céu com pequenos pontos luminosos e o vento fresco da noite de calor
A chuva forte com seus trovões barulhentos
A lua cheia vista da cama com a janela aberta
Me comove olhar a cicatriz no peito da minha mãe
Me comove o amigo fazendo sinal da cruz antes de jantar uma pizza
Me comove o chef de cozinha colocando a hortelã pequenininha em cima de uma rodela de
laranja
As formigas em fila levando nas costas não sei quantas vezes o próprio peso
A cigarra gritando até morrer



P.S: Dedico a memória da Vó Iolanda, Vô Ângelo, Vó Maria, Vô Manuel.
Dedico a minha mãe e meu pai.
O amor que tenho por todos vocês é vosso, como é só de vocês o meu aniversário.