quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Verdade nua e crua



Assisto ao filme "Verdade Nua e Crua" em cartaz nos cinemas com Katherine Heigl (de Grey's Anatomy)
e o delicioso Gerard Butler (de P.S. I Love You, que me inspirou a contar minha história de separação).
Filme muito divertido, sem ser piegas, e com boas reflexões sobre os relacionamentos.


Mike é o esteriótipo do machão, meio chauvinista, com suas teorias prontas sobre relacionamentos. Abby é o oposto, romântica, idealizadora e ansiosa por encontrar seu príncipe encantado. Tanto faz quem diz o que é realidade ou ilusão, ambos começam o filme na superfície do assunto, o mais interssante acontece no movimento que os levam a outras descobertas no decorrer da história, de uma forma bem divertida.
Pra mim os clichês servem pra nos situar sobre algumas "realidades" que podemos levar em consideração quando nos relacionamos com o sexo oposto, mas vale o cuidado pra que não nos prendamos a "receitas de bolo". Que os homens são mais visuais e vêm o sexo em primeiro lugar, que as convenções sociais colaboram com a idéia de monogamia e com o casamento, tem sua razão. Que as mulheres têm uma maior tendência ao romantismo, querem um casamento e construir uma família, em geral procede. Que alguns jogos de sedução e artifícios funcionam muito bem também são uma verdade. Mas a pergunta que ficou na minha cabeça durante a sessão foi: o que é a verdade? A verdade não é até onde você quer chegar?

Explico. Entre os machismos, feminismos, biologia, história, genética etc entre todas as convenções, especulações e afirmações sempre há um componente de zilhões de possibilidades altamente pessoais, fora dos padrões e do nosso controle, que unem duas pessoas. Para mim isso se resume a duas perguntas: Aonde você quer chegar e o que você quer do relacionamento? O contato com essas respostas realmente nos levam as verdades nuas e cruas, mas não as de um senso comum, mas as nossas próprias.

Assim se nos atermos apenas a conquista, saibamos que por ali vamos ficar praticamente em círculos, num jogo que tem limite, mas pode se repetir diversas vezes. Seduzir com foco apenas na conquista, com estratégias como dita Mike, pode até ser bem sucedido, mas é algo limitado em termos de "onde chegar", afinal seduzir exige mais talento que habilidade (no meu modo de ver) pois todos nós nascemos com alguma capacidade natural. Além disso há muitos artifícios para se lançar mão quando esse lado não é bem desenvolvido, vide a quantidade de pessoas que ensinam técnicas e dão dicas sobre o assunto e como isso tem aumentado cada vez mais.
Com isso não quero diminuir o valor da sedução mas quero levar o leitor para além desse lugar mais conhecido e seguro.

Se você quer chegar ao amor, o tão idealizado, deturpado e ansiado amor, os caminhos mudam completamente. Para mim, o terreno do amor é tão surpreendente, desconhecido e fascinante que nenhuma regra vale na prática. Não enquanto se vive o amor, talvez olhando de fora, num momento mais ou menos favorável consigamos explicar as razões do sucesso/fracasso amoroso. Mas o amor exige uma transformação tão constante, uma atenção e principalmente autoconhecimento e consciência, que de antemão se parece com os doze trabalhos de Hércules. E isso tudo com um grande risco de frustração, então deve ser mais ou menos por aí que reside nosso grande temor em realmente amar. E é esse medo que causa todas as grandes confusões, e isso o filme também ilustra.

Seja na realidade de Mike ou na fantasia de Abby em ambos há a idealização ou no mínimo uma projeção de situações do passado. Isso é bacana de ver no filme, como somos reféns das frustrações anteriores e como isso cria modelos e padrões em nossa mente. Então me ocorre algo dos ensinamentos espirituais, o estar no momento presente que muitos chamam de estado de não-mente. A presença, estar pleno naquele momento e com aquela pessoa, essa é a forma de dar um salto para algo mais profundo e ilimitado. E quanto mais aprofundamos, mais verdades nuas e cruas vão aparecer, as verdades sobre nós mesmos, isso é o grande salto.

Tenho cultivado um olhar para as relações como um rico instrumento de autoconhecimento e crescimento, afinal elas são grandes desafios e espelhos das nossas próprias questões. Tenho tentado dar mais valor ao aprendizado e menos aos resultados. Não tem sido fácil pois tenho tido relações cada vez mais fora dos padrões a que eu estava acostumada, onde tenho menor controle. Mas depois de muito me culpar, frustrar e ficar pessimista decidi experimentar essa nova forma de olhar as situações. Assim tenho conseguido dar menos atenção as frustrações e colocar mais atenção no meu caminho, estando presente nele como naquelas perguntas que mencionei acima. Trazendo esses questionamentos pra minha própria evolução, penso que posso estar mais honesta e inteira sempre que me relacionar com um homem.

Uma das "verdades"em que acredito é que o amor é encontro, pois quando isso acontece parece que automaticamente nos entregamos a aventura cheia de terrenos acidentados sem precisar se apoiar tanto em modelos ou idéias preconcebidas. Quando acontece um encontro, todas as instruções de Mike caem por água abaixo e as neuras de Abby também. O problema é que vamos deturpando essa conexão incial genuína com o passar do tempo, conforme nossas inseguranças são desafiadas pela impermanência das situações.
Falando por mim , tive a sorte de ter dois grandes encontros na vida, um aos 14 anos com meu primeiro namorado e outro com meu ex-marido aos 18. Após minha separação tive um namorado que enquanto éramos um "caso" foi um encontro bem bonito, mas que no relacionamento como namorados não prosseguiu, o que levou ao rompimento. Com ele ficou mais claro o que já tinha vivido antes, quando um homem realmente gosta de uma mulher ele é muito destemido e tem muitas habilidades com os obstáculos. Como é bonito ver essas qualidades despertas num homem! Esse meu ex-namorado foi uma das pessoas mais habilidosas e persistentes que conheci, e não apenas para a conquista de um "troféu". Ele sabia estar por perto, as vezes se excedia, as vezes era na medida, mas nunca menos. Quando percebia resistência em algum aspecto ele simplesmente contornava sem eu sequer saber como, quando via lá estava eu entregue junto dele.

Todos nós temos medo quando começamos a nos envolver. As mulheres podem disfarçar com uma certa frieza e arrogância e os homens com um certo descaso, egoísmo, vaidade, mas é muito fácil perceber. Pra mim estava claro desde o início que Mike tinha sido ferido em algum momento para ser tão racional e "cru".
Mas o que tem a relação de Mike e Abby de interessante para que eles terminem juntos?
Mike sabe os pontos fracos de Abby, suas neuras, obsessões. Abby sabe o lado cru de Mike, que a princípio a choca muito. Quando começam a trocar com o outro sobre seus universos, o primeiro ponto de conexão acontece. Mike com seus conselhos, estava tentando trazer o melhor de Abby a tona. Abby, mais solta, se relaciona de outro lugar com Mike, não mais a neurótica e controladora somente, mas também mulher, segura, divertida e por isso muito sexy. Não só por roupas e cabelo, mas por ter se apropriado de um lado adormecido que a fez brilhar.
Quanto mais segura Abby se torna, mais se relaciona de igual pra igual com Mike, e isso é absolutamente sedutor, não há nada mais sexy que pessoas inteiras. O ponto de conexão fatal é na viagem em que Mike tem seu lado frágil exposto. Ali Abby entra em contato com o "verdadeiro" Mike, tê-lo assim mais nu e ainda espontâneo é mais uma conexão. E nada mais simbólico que a dança que acontece. Eles estavam no ponto para uma dança, prontos para interagirem inteiros, então contece a explosão, não só sexual, mas a explosão do encontro.

Sem medir forças, o homem parece mais frágil que a mulher para enfrentar seu medo de amar, acho que têm medo do que é estar inteiros com uma mulher numa vulnerabilidade que julgam ameaçar sua virilidade ( pra mim é exatamente o contrário). Nós, em contrapartida, temos muitas inseguranças do quanto esse homem está com a gente mesmo, uma coisa de apego e receio do abandono talvez, e também de que se formos inteiras isso possa "espantar" esse homem. Intuitivamente o que me ocorre é que nós mulheres tendemos diante da força/fraqueza masculinas a oscilar entre a mãe e a filha deles. O mais sábio pode ser o seguinte: compaixão sempre.
Diante de um homem que você realmente se conecte, sorrir mais diante das fraquezas que simplesmente apontá-las e criticá-las. Trazê-lo para dentro de você onde é seguro se mostrar como é, sem mentiras, jogos ou manipulações. Como se diz no Budismo, trazê-lo para sua paisagem, em nível de energia, sem precisar dizer como fazer como uma mãe ou ficar tão carente como uma filha.

Diante de uma mulher que você realmente se conecte, sorrir para as durezas que aparecem em forma de excessos. Contornar habilmente as resistências, despi-las e tirá-las pra dançar. Trazê-la para sua paisagem, penetrá-la mostrando em energia que você está inteiro com ela, sem ser muito racional como pai ou infantil como filho. O homem que está ao lado dela, com todos os medos, certezas, forças e inseguranças.

A cena da dança é a mais bonita do filme e a mais sexy, sem dúvidas. Quando os papéis ficaram na cadeira e na pista estão apenas um homem e uma mulher deixando suas "primeiras intenções" falarem mais alto.
Essas intenções só aparecem da inteireiza de cada um, e paradoxalmente, da liberdade de transitar até entre a sedução, os jogos ou o que for, sem se prender a nenhum desses rótulos ou modelos.



P.S: Dedico a tudo que aprendo na convivência com os homens, num lapso de compaixão por todos os aspectos do que isso inclui.

7 comentários:

Anônimo disse...

Então... será que devemos amar?

Girassol disse...

Como dever não, mas recomendo a experiência ao menos uma vez nessa vida.

namastê

Rodrigo Marcilio disse...

Vivemos e somos aculturados por extensão a participarmos de um modelo de Sociedade sob a ótica da tradição judaico-cristã, que reprimiu a expressão da sexualidade durante séculos, e criou um modelo monogâmico de relação entre homens e mulheres. E agora vivemos justamente o contrário uma explosão, da sexualidade. Nos relacionamos sexualmente com alguém, mas não amorasamente, como se houvessmos criado uma dicotomia, sexo e amor como substâncias separadas, tais como agua e oleo que não se misturam por mais que se agitem ambos em um recepiente... Eros ou cupido, Deus mitológico do amor, sofreu do mesmo mal que causava nos enamorados ao acidentar-se com uma de suas setas, e apaixonar-se perdidamente por Psiquê, sentindo o mesmo sofrimento que causava nos enamorados que juntava, a sensação de medo e de perda, da completude para incompletude. É engraçado como determinadas conexões ocorrem, pois que o cristianismo prega um amor ao próximo, a compaixão, que seria um amor sublimado em termos freudianos, um amor que se destitui ou que se reprime de sua natureza sexual e o budismo em sua primeira lei, nos diz que tudo na vida é sofrimento, e que para escaparmos de tal sofrimento teriamos de cessar com a fonte de sofrimento, que nascem de nossos desejos e apegos. Assim chegamos a ideia da expressão do amor como dor. E não é a toa que desejamos dar vazão apenas aos instintos, trocando-os pelos sentimentos. Viver a experiência humana é uma intensa troca e aprendizado como bem colocou, somos todos vitimas e algozes... Quanto antes percebermos isso, mais rapido amadureceremos. Talvez um dia superaremos a ideia inerente a todo relacionamento amoroso, sexual ou social, esperando qualquer beneficio em troca do que ofertamos em contrapartida. A dor nasce desta ideia de que ao doarmos o que quer seja ao outro, esperemos algum tipo de retribuição e gratidão. Neste momento tudo o que podemos fazer em prol de nossa evolução é reconhecermos a nossa Sombra, não dando cabo a mais vil expressão animalesca que ainda nos anima, enquanto animais que também o somos, mas reconhecendo que a possuimos como parte de um processo a nos lançar a outros estados mais iluminados de nosso Ser, na transição de um Homo Sapiens Sapiens para um Spiritus Sapiens !!!

Namastê !

LU disse...

Ola!
Simplesmente maravilhoso o seu texto.
Me emocionou demais.
Acompanho seu blog há muito tempo, mas nunca tive coragem de comentar.
Pois bem, depois de um puta texto desse, resolvi sair do anonimato
e te avisar que seu blog tbm está linkado no meu.

bjinhosss, continue com esta escrita tão inspiradora.

Guilherme Nascimento Valadares disse...

Gostei do filme e do post.

bjão!

Renata Rainho disse...

Eu ainda não vi o filme. Mas depois de 3 anos de terapia cheguei a conclusão que preciso de um homem forte e independente ao meu lado.
Alguém sem vontade de prestar vestibular ou ficar vagabundeando em casa. algúem bem definido sexualmente e profissionalmente falando.
Nossa acho que estou muito exigente rs

bj

Girassol disse...

Sim, é sempre bom revermos nossas expectativas até a exaustão, para que reste algo um pouco maior que nos permita uma forma de amar muito mais ampla.
Guilherme e Lu, obrigada pelos primeiros comentários por aqui ;)
Renata, gosto de um pensamento que li no blog de um amigo, antes de buscar a pessoa certa, procure ser você a pessoa certa ;)

namastê