segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Transcendendo a paixão (o ciclo se fecha)


"The whale doesn't sing because she has an answer. She sings because she has a song"

Ashes and Snow

O Caminho, ah o caminho... Imersa na Natureza, retomo a consciência. Comungar com a Natureza me faz inteira e radiante e fecho um ciclo assim, precisava dela para transcender.
Nas últimas semanas falei sobre minha paixão. Euforia e ansiedade na mesma medida, gostoso e dolorido de sentir. Ansiosa por respostas, mergulho na escuridão de uma trilha onde não queria nada além do lúdico de adivinhar quais eram os ruídos. Sapo? Rã? Grilo? Cigarra?
Se na Natureza me fascina o mistério e é fácil, simples e natural me entregar a ele, porque não é assim na vida cotidiana? Se na Natureza eu sou valente e nenhuma supresa me é negativa, onde isso fica escondido nessa cidade, nesses sentimentos, nesses padrões e condicionamentos?
Estava ávida por ele e acabo ávida de mim. Isso é lucidez?

Descubro que tudo que admiro nele, está em mim e que tudo que quero receber, tenho em abundância para dar. Toda alegria que a companhia dele me deu, podia experimentar sozinha e com outras pessoas.
Ele me ensinou a amar mais, me ensinou o que já estava em mim, ele me despertou com a paixão. Agora descubro como nunca antes que a paixão é muito melhor quando reconhecemos que ela nos pertence. O encantamento pelo outro está na potencialidade de encantarmos a vida e essa sim é a verdadeira magia, quando descobrimos o nosso encantamento, sentimos as mesmas borboletinhas no estômago que diante do objeto da paixão. O outro é um espelho, um filme, onde tudo de melhor e pior é refletido. Olhar o outro e ficar só na idealização é o labirinto.
Olhar o outro e se ver através e além dele, a verdadeira liberdade.
Ele me ensinou a observar meu ego, e descubro que quando era mais inflado não havia problemas, apenas um ego que já experimentou o seu êxtase de inflar e se sentir sólido pode perceber o vazio que isso tem perto de apenas ser, só assim comecei a valorizar a simpliciade de apenas ser quem sou e apreciar ainda mais a autenticidade e espontaneidade. Ele me ensinou a ter paciência, ele me ensinou a ter compaixão, olhar o outro em seu contexto. Ele me ensinou a perdoar a mim mesma por não saber, por ser tão iniciante com tanta experiência...

Na Natureza, sou feliz por ser iniciante sempre, pois só essa condição me permite ver tudo como se fosse a primeira vez. Isso é o divino e a presença que os espiritualistas dizem! Bom aprender e desaprender, sempre. Se na Natureza sou assim, que tal trazer isso pra esse momento tão intenso?

Agora percebo que irradio. Que o que senti por ele, outros sentem por mim, eu sinto por outros. Eu não sou fundamental, nem ele. Somos inúteis. Somos o que somos, nada além e nada menos do que somos... Como isso é acolhedor! Não há o que se cobrar, não há mágoa, não há expectativas! Ahhhhhhh! Eu consigo ser mais espontânea! Eu consigo viver o presente!!!

Acabo encontrando essa pequena chave entre as montanhas: depois de ansiar demais, sofrer, querer fazer a coisa certa, descubro que tudo que quero ganhar eu já tenho. E tudo que tenho posso oferecer o quanto e quando quiser. E quanto mais ofereço, mais irradio. Quanto mais irradio, mais atraio. Quanto mais atraio, mais presença sinto. E quanto mais estou presente, mais vida pulsa dentro de mim.

Gente é para brilhar, como alguém já disse. Quer alguém? Brilhe! Quer ser amada? Ame! Quer vencer o medo? Faça! Quer descobrir? Observe! Mas nunca, nunca sem antes ter olhado nua e cruamente pra dentro de você e sentido com a profundidade abismal que isso tem qual é a sua verdade.

Irradie o melhor que você tem dentro de si ao invés de se perguntar porque algumas coisas não acontecem contigo. Como nessa linda frase, cante não por um motivo externo, ou uma afirmação, uma aceitação, uma resposta. Cante e irradie porque você já tem uma linda canção dentro de si mesmo e há um mundo querendo ouvir. Assim é na Natureza e por isso ela é tão maravilhosa, cada planta e animal oferecem o que têm, o que é da sua natureza. E isso é harmonia.
Então, o paraíso está criado, as portas estão abertas. Sem segredos, nem "o segredo", o ser humano é muito óbvio, maravilhosamente óbvio que é só abrir os olhos pra ver...



P.S: Dedico a Natureza maravilhosa de Aiuruoca e a todos os homens e amigas que fizeram parte desse filme.
Minha nova paixão? O mistério! Não consigo parar de pensar nele... rs

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Feast of love


"Há uma história sobre os deuses gregos. Eles estavam entediados, então inventaram o ser humano. Mas continuaram entediados, então inventaram o amor. Assim, não se entediaram mais. Então decidiram experimentar o amor.
E finalmente, inventaram o riso, para que pudessem suportá-lo".

Feast of Love (Banquete do Amor)

Assistir esse filme é como uma tarde gostosa num banco de parque. Me senti no lugar de Harry, observadora como sou, sorrindo e me envolvendo com as histórias alheias. E também no lugar de Bradley, querendo um pouco de felicidade, buscando adivinhar as necessidades alheias, agradar , amar, ser amado.
Para amar profundamente é preciso ter um coração valente. Coragem (coração + ação). Muito se aconselha sobre o amor, e o filme mostra isso, mas no fim das contas não nos resta outra alternativa senão pular, de preferência de olhos abertos. Não há outro jeito senão pular.
Quando você sabe que tudo pode dar errado, que você pode se ferir mas mesmo assim segue adiante, arriscando. É muito mais excitante que investir na bolsa, pular de pára quedas ou alta velocidade. É um grande risco, e no fim dessa nossa impermanente existência talvez seja o que mais tenha sentido, apesar da dor que acompanha essa finitude sempre iminente...

Sejam amorosas ou não a grande força do ser humano está na conexão das relações de troca, de compaixão, ajuda mútua. Isso é o que nos permite sonhar juntos, suportar o que não entendemos, celebrar o que nos alegra. A cadeia de amor que nos conecta, sem ser piegas, no sentido mais humano e divino dessa expressão é o que nos mantém flutuando serenamente nesse mar que é a vida...

Isso é o que esse filme me trouxe, abaixo as melhores frases:

Do Harry para o Bradley:

" Você tem que ficar alerta. Tudo que precisamos saber está bem a nossa frente . Nossas ilusões, nossas expectativas sobre as pessoas podem nos cegar. Mas sempre podemos saber o final pela forma como começa."

"Da próxima vez, salte! Mas de olhos abertos."


De Bradley para Harry

"- Há tanta coisa que eles não sabem, tanto sofrimento que nem podem imaginar
- Mesmo que soubessem, não mudaria nada
- Ela sabia e não fugiu, não se enfiou num buraco. Ela comprou uma casa, parou de evitar filhos e se casou com ele. Deus não nos odeia Harry, se odiasse não teria feito o nosso coração tão forte."







P.S: Dedico a todos os corações que amam e que querem amar de novo para que se tornem cada vez mais valentes.
E dedico a todos os grandes amigos e pessoas incríveis que formam uma rede iluminada ao meu redor.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Sobre os espaços


"Meu pensamento tem a ver com os vazios da palavra, com a não comunicação.
É que só a presença é mesmo capaz de encher o espaço, é um ser humano que está se expondo para outro e isso gera um calor imenso."

"O espetacular nem sempre provoca reação, as pessoas assistem passivas aos filmes de Hollywood."

Maurício Ianês




A vida segue e eu respiro entre os intervalos de frustrações e euforias. Desde que me propus a viver a fundo o encontro comigo mesma, na mais dura e crua solidão do se bastar, tenho começado a me libertar de algumas ilusões.
Ouço e olho ao redor pessoas ditando regras de como se relacionar, sobre o comportamento de homens e mulheres, pistas pra chegar a conclusões que só interessam a razão e não fazem sentido algum em energia e emoção. Quando me perdi nos labirintos dos sinais impermanentes do sentimento alheio, resolvi parar e observar o que realmente fazia sentido pra mim.

A verdade é que é raro o encontro de duas pessoas. Fato. Não há porque ficar elocubrando em cima disso, como os tempos estão difíceis, as pessoas estranhas e blá blá.
São outros tempos, muito diferentes dos meus 18 anos, com muito mais pressa, informação e recursos de comunicação, que guardadas suas vantagens, só vieram colaborar ainda mais com a nossa ansiedade por controle.
Então se é raro, mas ainda assim possível, que no momento do encontro as duas pessoas possam estar motivadas em dar o melhor de si. O que é isso? Pra mim, é abrir o peito pro outro e recebê-lo dentro do contexto dele e não do meu. Acolhendo o outro, evito os julgamentos superficiais do senso comum e os joguinhos que fazemos mostrando o que não somos, dizendo o que não queríamos dizer, ou silenciando algo bom. Estamos cada vez mais nos protegendo, guardando nossos sentimentos como tesouro precioso que apenas enferruja e vira pó. Quando acontece o desencontro, e por consequência a frustração, acabamos criando verdades sobre homens e mulheres, crenças negativas que não levam a nada, a não ser afastar ainda mais o que é raro de juntar.

Por sentir esse amor-paixão, tento ficar atenta ao outro e a mim, respeitando os hiatos entre o que espero e o que posso receber, o que dou e como aquilo é recebido por ele dentro dos nossos contextos. Se eu liguei ou foi ele, não importa. Se um tá mais machucado, não importa. Tem importância como eu dou nascimento a você a partir de como te olho. Assim, tento direcionar o olhar pra ver o puro em você a despeito de toda poeira e ruido. Não é fácil, meu ego insiste em orgulho próprio, limite, mas meu coração quer te ver. Então eu continuo praticando e isso me basta. E felizmente você tem me surpreendido.

Quando a gente ama quer respostas, explicações, principalmente na frustração de uma expectativa. Talvez isso se minimize quando tomamos a responsabilidade pelo que projetamos e esperamos do outro, ao invés de criticá-lo, reclamar, tentar impor uma outra atitude, mudar o que não tem como, porque não nos pertence.

Quando abri os braços e dancei pra você imaginando que você estivesse vendo, você veio pra mim. Você não estava lá, não tinha nada de concreto naquela hora, mas você veio como um cheiro bom que entra pela janela e invade a casa. Com isso sorri em pensar que é muito mais simples atrair, encantar com os espaços do que solicitar, buscar o tempo todo uma certeza ilusória. Pro amor ser real, ele precisa desses espaços "virtuais", vez por outra. Pra ter você aqui do meu lado, foi necessário que nossos vácuos nos atraíssem.

Se é só por hoje, não sei e não vou saber. Estou descobrindo que toda paixão é só por hoje, sua natureza volátil não pode oferecer mais. Mas com alguns outros ingredientes como respeito, compaixão e amizade, ela pode ser um tanto mais consistente que o vento.

Concluo que tudo que temos são os espaços entre nós. Esperando por surpresas fantásticas, vivia num suspiro sofrido da queda iminente de energia. Observando e deixando o espaço acontecer, senti paz, me senti plena.
Esse não ter nada aos olhos do mundo é o que nos dá tudo que precisamos: um ao outro, juntos, quando os espaços são preenchidos de nada além da nossa radiante presença.







P.S: Dedico ao meu avô amado que me acompanha sempre, hoje seria seu aniversário. Meu grande amor a você.

Dedico a que tem me ensinado tanto sobre mim, sobre ele e sobre o querer bem da paixão evoluída.

Não posso deixar de citar a performance do Maurício Ianês que começou hoje na Bienal . Ele nu no vazio do corredor, exposto a ter apenas o que recebesse do público para as suas necessidades. Suas idéias enriqueceram o meu dia, bem como palavras do Lama Padma Samten ouvidas há algumas semanas.