
"Ah girassol, farto do tempo
Os passos do sol a contar,
O clima dourado e ameno a buscar
Em que a jornada do viajante chega a seu termo,
Quando a juventude que com o desejo se esvaiu,
E a pálida virgem que de neve se cobriu,
Hão de ansiar e de seus túmulos ressurgir
Para onde meu girassol deseja ir!"
William BlakePausa. Em tempos de muitos desejos, o silêncio é bem vindo. Antes de ceder ao impulso de mais e mais ação, contraio. É desafio? É teste? Não sei, mas interrompo o movimento que muito provavelmente levaria a desdobramentos conhecidos. Experimento o que é esse silêncio e o que virá disso, respiro.
Para esses momentos filmes e gatos são excelente companhia. Os filmes têm uma grande importância nos meus processos e, além do mais, têm funcionado como um verdadeiro oráculo onde muitas respostas aparecem antes de tudo voltar aos mesmos paradigmas.
Atualmente me interesso por epopéias, grandes figuras históricas e mitológicas, seres movidos por aventura e desafios na natureza. Como por exemplo Alexandre, o Grande e os líderes de expedições ao cume do Everest.
Eu tenho uma certa tendência a valorizar figuras inovadoras, vanguardistas, revolucionárias, guerreiras, acho são arquétipos muito fortes pra mim, não sei bem a razão. Mas dessa vez, as aventuras fantásticas desses filmes não me fisgaram como antes. Não que deixe de admirar esses desbravadores e suas viagens, mas talvez por estar um pouco mais atenta a motivação contida nas atitudes, minhas energias não se moveram tanto.
A saga de Alexandre comprova um monte de coisas que aprendo bem aos poucos com o budismo. A tremenda competição entre os semi - deuses, como eles não relaxam e por mais prazeres e conquistas que obtenham, sempre buscam mais e mais, incansavelmente... O orgulho e inveja dos deuses onde não há espaço para o outro, ele é apenas mais uma referência pra confirmação do que são ou não são, de suas identidades. Alexandre era extremamente carismático, corajoso, mas perdeu de vista a realidade quando a única coisa que via a frente eram
suas buscas. Como ele disse: "Cada terra, cada fronteira que cruzo é o fim de mais uma ilusão. Sinto que a morte será a última. Mas continuo avançando para achar esse lar".
Eu dou crédito a quem quer vencer seus medos e a si mesmo, mas tenho pensado nas diferentes maneiras de fazê-lo que não sejam
apenas extraordinárias. O quanto nos vencemos quando nos relacionamos com o outro, cada vez que incluimos um outro no nosso mundo, nos nossos desejos, nos nossos sonhos. Ei, eu já vivi isso algumas vezes e parece que esse perfume de liberdade tem me causado uma certa amnésia.
"Os sonhadores nos esgotam, precisam morrer antes que nos matem com seus malditos sonhos". Eu mesma ando esgotada de tanto colocar uma quantidade enorme de energia em sonhos, buscas e desafios. Me esqueci de que há muita gente para incluir nisso tudo, há outras visões e sentimentos para acolher.
"Estamos mais sós quando estamos no mito." A solidão do mito no topo de um ideal talvez seja a fonte da sua tragédia. O herói não é menos solitário mas talvez a diferença principal esteja no fato de voltar para contar sobre sua jornada aos demais e nesse compartilhar, essa solidão tenha um outro brilho. Tenho desejado o mito sim, o ideal, o grandioso. A falta de medo para muitas coisas pode ser perigosa, não necessariamente uma coragem, mas uma certa arrogância ou simplesmente falta de aceitação dos limites.
Não deixo de acreditar na frase de Virgílio de que a sorte favorece os audazes. Será que também não é ousado arriscar um monte de verdades para viver uma vida mais consciente e simples? Não é necessário ser ousado para andar um pouco contra a corrente desse monte de valores externos e ilusórios e se render ao que é natural, lúcido e desconstrutor, nem que seja por breves momentos? A ousadia parece estar mais ligada a simplicidade do que me ocorria antes. E a liberdade muito mais ligada a aceitação de limites naturais do que eu consigo perceber.
No Everest quanto mais se avança em direção ao cume, mais o ar se torna rarefeito e menos tempo é possível permanecer para desfrutar do êxtase. Não é linda essa metáfora? Então penso, o ar é rarefeito no auge, os êxtases não duram mais do que devem durar sua natureza de êxtase, assim como todas as emoções. Seria maldição e inveja dos deuses como acreditavam os gregos? Ou uma insistência humana em alcançar o que não se alcança, vencer o que se deveria reverenciar, tocar o que não é tátil, fazer durar o que é e será sempre efêmero, porque essa é sua natureza?
Passo um fim de semana em retiro com o Lama Samten cuja naturalidade, pureza e lucidez tocam fundo. Não há saia justa, não há mal estar, não há pergunta inconveniente. As coisas são o que são, com a natureza peculiar de cada uma. Ele me parece uma criança aberta, espontânea e com um olhar luminoso e feliz para o mundo. Se na presença de Alexandre, O Grande seus soldados sentiam que podiam tudo e que eram melhores do que si mesmos, digo que sinto isso na presença do Lama Padma Samten. Ouvi-lo, estar diante dele é uma espécie de poder para o qual nos rendemos, sua energia, por si só é inspiradora mesmo que tudo o que ele diga pareça tão distante de ser alcançado.
Agora aceito, se é pra buscar tanto que seja a lucidez. Se é pra competir quero ganhar dos condicionamentos. Se é pra ter orgulho que seja dos lapsos de verdadeira compaixão que tenho. Cansei de energia gasta para ser melhor em âmbito divino ou pagão.
Cara, hoje, e pode ser só por hoje, me contento com a naturalidade das contradições e incoerências que existem em mim e no mundo.
"Sem sair da porta,
conhece-se o mundo;
Sem espiar pela janela,
vê-se o Caminho do céu.
Mais longe a sua saída,
menor o seu conhecimento.
Portanto, o Sábio
não caminha
e mesmo assim conhece;
Não olha
e mesmo assim nomeia;
Não age e mesmo assim conclui."
TAO-TE-CHING
Aforismo 47
P.S: Dedico ao Roberto pelo I Ching, a todos os presentes no retiro e ao querido Lama Padma Samten pelo privilégio de receber tesouros de forma tão acessível e natural.